1. Coronavírus e a Logística

Em dezembro de 2019, foi descoberto na província de Hubei, na China, um novo coronavírus causador da doença Covid-19.  Em um curto espaço de tempo, o vírus se espalhou pelo mundo dando origem à uma pandemia (PEREIRA, 2020). Sem a perspectiva de uma solução de curto prazo para o problema, a principal medida de contenção indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tem sido o isolamento social.

Enquanto os trabalhadores da saúde fazem a linha de frente contra a pandemia, outros profissionais garantem o abastecimento de hospitais e demais estabelecimentos para que a população possa continuar a viver sem sair de casa. É neste cenário que se destaca a área da logística, que será o foco do presente artigo.

A logística, inserida dentro do contexto da cadeia de suprimentos, abrange os processos de transporte, armazenagem e abastecimento, que devem acontecer de maneira integrada e de acordo com as necessidades de cada cliente (CSCMP, 2013). Com a chegada do vírus, tais processos foram severamente impactados, atingindo diversos setores da indústria, além da saúde, desde o automotivo até o eletroeletrônico (APOIO Logística, 2020).  

Porém, como um vírus isolado, originado em um único país, foi capaz de atingir o mundo todo e impactá-lo dessa maneira? Para compreender esse aspecto, primeiro é preciso entender como a globalização afetou o comércio mundial e o que são as cadeias globais.

2. Cadeias Globais e Dependência da China

Por muitos séculos, o comércio internacional foi constituído pela centralização de processos produtivos e pela especialização de cada país na produção de bens específicos. A produção era ditada de acordo com os recursos que fossem mais abundantes ou pelos produtos que possuíssem tecnologia mais avançada, podendo assim gerar maiores lucros. Foi apenas na década de 50 que o padrão de produção, que antes concentrava todos os processos sob uma única localização e comando direto de uma única empresa, passou a mudar para um sistema essencialmente fragmentado (NONNENBERG, 2014).

A especialização de cada país de acordo com tarefas em que possam obter vantagens de custos ao invés de produtos é uma consequência do fenômeno da globalização desencadeado após a Segunda Guerra Mundial. As inovações tecnológicas, a difusão de informações graças a criação da internet e a redução de barreiras tarifárias e não tarifárias bem como dos custos de transportes e comunicação   impulsionaram um modelo de comercialização altamente competitivo e tecnológico (FURLAM et. al, 2015; NONNENBERG, 2014).

Christopher (2002) descreve as cadeias de suprimento como uma rede de organizações, composta por diversos processos que atuam na geração de valor para o produto, ou seja, o caminho que uma mercadoria percorre, abrangendo desde a etapa das fontes de matéria-prima; passando pela indústria, manufatura e distribuidores; até, por fim, a chegada do produto nas mãos do cliente final (NOVAES, 2015).

Desta forma, as cadeias de suprimento evoluíram para tornarem-se redes dinâmicas de empresas interconectadas ao redor do mundo, altamente dependentes de sistemas eficientes de transporte e comunicação (CHRISTOPHER, 2004). Logo, a logística passou a exercer um papel decisivo na sobrevivência das instituições, que necessitam responder às exigências do consumidor de forma rápida e acessível (FURLAM et. al, 2015). 

A fim de obter ganhos de escala e acesso às tecnologias, as empresas globais apostam em estratégias de terceirização de atividades [offshoring e outsourcing] em países que oferecem recursos e mão de obra de baixo custo (CHRISTOPHER, 2002). Entretanto, se por um lado a terceirização oferece a possibilidade de melhor desempenho para as instituições, essa tendência também acentua a aglomeração de indústrias em locais onde há maior acessibilidade aos recursos primários e melhores condições de negócios. Como resultado, as cadeias de suprimentos tornam-se muito mais vulneráveis à possíveis rupturas (YE; ABE, 2012).

Outro fator que destaca a rápida evolução das cadeias globais é que estas proporcionam novas opções de desenvolvimento aos países que nelas se inserem (BALDWIN, 2012). Esse é o exemplo da China, que se insere no comércio internacional como forma de acelerar sua economia e diversificar sua produção. A partir dos anos 70, a participação da Ásia (e em especial, da China) nas cadeias de suprimento globais explodiu, em contraste com o padrão que até então concentrava a produção nos países desenvolvidos (BALDWIN, 2012; SARMENTO, 2018). Hoje, a China configura-se como centro produtor mundial e fornecedor de matérias primas e componentes de diferentes produtos (BETTI; NI, 2020). 

Todos esses fatores fizeram com que o coronavírus afetasse gestores e fornecedores de todo o mundo de uma forma jamais vista, mudando a sua percepção a respeito da sua própria capacidade de produção.

3. O Impacto nas Cadeias Globais

A interdependência que as empresas de uma cadeia global de suprimentos estão sujeitas, desde o fornecedor de matéria-prima até o consumidor final, pode ser considerada um dos principais objetos de ameaça diante dos efeitos do Covid-19. 

Neste cenário, o pontapé inicial para a ruptura do comércio internacional  deu-se na China, com as medidas de isolamento social implementadas desde o início do ano. Isso se deve ao fato de que a China impacta as cadeias globais de duas formas distintas: ao mesmo tempo que é uma das maiores fornecedoras de matéria-prima e produtos finalizados do mundo, também é uma grande consumidora de bens e serviços. Portanto, quanto mais tempo as fábricas chinesas permaneçam fechadas, maiores serão os problemas em relação à falta de abastecimento de peças e componentes ao redor do mundo, assim como, maiores serão os impactos nos países que dependem das importações chinesas, já que esses serão cada vez mais prejudicados pela diminuição do consumo (SPEND MATTERS, 2020).

A província de Hubei, que é o principal foco do vírus na China, corresponde por cerca de 4,5% do PIB Chinês, sendo um centro de referência mundial na fabricação dos setores eletrônico, automotivo e farmacêutico. Apenas após a disrupção causada pelo novo coronavírus, que as empresas passaram a perceber o quanto suas cadeias produtivas eram dependentes dessa região. Ao colocar foco na redução de custos e políticas de just-in-time, não foram traçados planos de contenção para combater possíveis problemas que atingissem a região, deixando assim as cadeias expostas a riscos muito mais altos de ruptura. De acordo com uma pesquisa feita pela câmara da indústria e comércio do Japão, mais de 50% das empresas questionadas relataram disrupção no fornecimento (JAVORCIK, 2020). 

Esse efeito pode ser ainda mais grave levando em conta que empresas têm maior contato com os fornecedores de primeiro nível, aqueles que fornecem diretamente para a empresa; mas falham em conhecer os fornecedores de segundo e terceiro nível, mais distantes na cadeia de suprimentos. Isso é mais comum do que se imagina: de acordo com Peter Guarraia, líder em cadeias de suprimento globais na empresa Bain & Co., mais de 60% dos executivos não possuem conhecimento dos fornecedores além do primeiro nível de sua cadeia. (MCGEE, 2020).

Alinhado à dependência dos grandes setores industriais em relação à China, pode-se chegar a três principais dificuldades logísticas que estão assombrando as cadeias de suprimento do mundo inteiro neste período: a disrupção nos meios de transporte decorrente de fechamentos de rodovias, portos e aeroportos; o impedimento do trabalho de funcionários de armazéns e centros de distribuição, devido às restrições do isolamento, e a falta de fornecimento e abastecimento (CHENG, 2020). 

No que tange ao setor de transportes, sete dos dez mais importantes portos ao redor do mundo estão localizados na China, enquanto dois são encontrados em Singapura e Coréia do Sul. Os três países foram fortemente afetados pela pandemia e não permaneceram funcionando normalmente (SPEND MATTERS, 2020), o que impacta diretamente diversas indústrias ao redor do mundo. 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) cita a pandemia como a maior crise mundial desde a Grande Depressão de 1929 (CHAN, 2020). Segundo pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 92% das indústrias brasileiras consultadas estão sentindo os impactos negativos em decorrência do cenário atual, principalmente pela queda da demanda, pela dificuldade em conseguir insumos e pela redução da oferta de capital de giro no sistema financeiro. Das organizações consultadas, quatro em cada dez tiveram sua produção interrompida; destas, 23% permanecerão paradas por tempo indeterminado (MÁXIMO, 2020). 

Entre os setores mais severamente impactados, vale citar o automotivo; além do problema da falta de abastecimento de componentes (CNF, 2020), tem-se a perda de demanda em dimensão crescente, de acordo com Ferdinand Dudenhöffer, especialista da indústria automobilística. Segundo o especialista, estima-se que pouco menos de 77 milhões de veículos serão vendidos em 2020, o que representa aproximadamente 7,5 milhões a menos que em 2017 (ULRICH, 2020).

Além deste, o setor eletroeletrônico compartilha das disrupções causadas pela falta de abastecimento. Até o início de março, 57% das empresas associadas da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) já apresentavam problemas no recebimento de materiais, componentes e insumos como telas de TVs e celulares (APOIO Logística, 2020). Segundo a consultoria Oxford Economics, as exportações chinesas de bens intermediários neste segmento respondem por mais de 10% da produção global desses produtos (G1, 2020). 

4. Considerações Finais

A crise desencadeada pelo novo coronavírus demonstrou não se restringir apenas ao âmbito da saúde, os seus efeitos políticos e econômicos são, de fato, sem precedentes. Entretanto, esta não é a primeira vez que um acontecimento de origem externa é capaz de causar instabilidade no abastecimento mundial e o colapso de várias empresas ao redor do mundo. 

A fragmentação das cadeias de suprimento por diversos países também as tornam sujeitas à diferentes tipos de ruptura. Hoje, as empresas estão igualmente suscetíveis a eventos que comprometam suas atividades, sejam eles de origem interna (relacionados aos processos produtivos internos ou à demanda e oferta de suprimentos) ou de origem externa à cadeia (desencadeados por fatores ambientais, políticos ou econômicos). 

A participação da China como fornecedora de diversos produtos demonstrou a fragilidade deste modelo de comércio e obrigou indústrias inteiras a repensarem suas cadeias. Embora a maioria dos eventos disruptivos fossem vistos como isolados até pouco tempo, agora, eles devem ser agregados aos processos de gestão de risco e pensados de forma integrada a todas as áreas das empresas. Isso, porque a construção de uma cadeia resiliente à rupturas e preparada com antecedência será essencial para a sua continuidade. 

A dependência à China também manifestou seu lado mais obscuro: o aumento estratosférico da demanda por materiais hospitalares e a interrupção de abastecimento de remédios fabricados no país. Na medida que o vírus se espalha pelo mundo, a situação torna-se cada vez mais caótica e as tensões entre os países pela compra de suprimentos aumentam. Este será o tema tratado do próximo artigo.

Autores: Giulia Wolff Bridi, Juliana Truffi Barci, Luis Eduardo Corrêa de Sousa Vieira, Pâmela Nicole Brecht e Yuri Marx

Revisão: Maya Lâinna Soares

 


Este é o primeiro artigo de uma série de textos voltados às redes sociais que serão desenvolvidos pelo  Gelog Grupo de Estudos Logísticos, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Através deste projeto, serão estudados os impactos de diferentes eventos disruptivos sobre as cadeias globais e seu sistema logístico, com ênfase para os recentes acontecimentos relacionados à pandemia do novo coronavírus. 

Embora os principais efeitos do Covid-19 tenham se manifestado na área da saúde, o Gelog se ocupará com os seus desdobramentos logísticos. Neste sentido, o projeto tem como principal objetivo demonstrar como as cadeias de suprimentos atuais estão suscetíveis à ruptura decorrente de variados eventos e qual é a importância da estruturação de planos de ação à frente destas possíveis disrupções. A seguir, os temas tratados estarão relacionados com a logística no meio hospitalar e empresarial, bem como à aplicação de ferramentas para gestão de risco e a construção da resiliência das cadeias de suprimento.


O Gelog – Grupo de Estudos Logísticos é dedicado à formação de futuros profissionais especialistas em logística através da capacitação teórica e prática, como a escrita de artigos, a realização de treinamentos internos e externos e projetos e visitas técnicas junto à empresas parceiras. O Gelog está sediado há mais de 15 anos no Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e está sob orientação do professor Carlos Manoel Taboada Rodriguez, Ph.D.

Referências

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BALDWIN, Richard. Global Supply Chains: Why they emerged, why they matter and where they are going. Geneva and Oxford University, 2012.

CHAN, Szu Ping. Coronavirus: ‘World faces worst recession since Great Depression’. BBC, 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/business-52273988>. Acesso em 19/04/2020.

CHENG, Jonathan. China’s Retailers and the Coronavirus Outbreak: Lessons from the Past. BAIN & COMPANY, 2020. Disponível em: <https://www.bain.com/insights/chinas-retailers-and-the-coronavirus-outbreak-lessons-from-the-past/>. Acesso em 17 de abr. de 2020. 

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CORONAVÍRUS: Veja o impacto em cada setor da economia, da indústria ao comércio. APOIO Logística, 2020. Disponível em: <http://apoiologistica.com.br/coronavirus-veja-o-impacto-em-cada-setor-da-economia-da-industria-ao-consumidor-final/>. Acesso em: 17 de abr. de 2020.

DA indústria de celulares à soja, os impactos do coronavírus na economia brasileira. G1, 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/02/12/da-industria-de-celulares-a-soja-os-impactos-do-coronavirus-na-economia-brasileira.ghtml>. Acesso em 18 de abr. de 2020. 

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